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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

12 [Nuccia em Prosa] - Conto "Lenço Vermelho"

Oi, gente!

Hoje, vou postar pra vocês um dos contos de minha autoria: "Lenço Vermelho".

Escrito lá pelos meses de julho e agosto de 2014, o conto narra os encontros de um casal em um mundo pós-guerra, doente sombrio e vigiado. Em meio a uma fuga, ela se abriga em um prédio abandonado, sofre um acidente e conhece seu parceiro. Lá, neste mesmo prédio, eles se descobrem em momentos excitantes e luxuriosos. Essa descoberta é feita apenas de carícias, sensações e pouquíssimas palavras. A cada encontro, ela precisa se vendar com um lenço vermelho.

Esse conto foi (lindamente!) selecionado para ser publicado na Antologia Sombras e Desejos, lançada no dia 19 de dezembro do ano passado.

Foi um conto fácil de começar, interessante de terminar e dificílimo de escrever. Como foi o primeiro conto com erotismo que escrevi, a maior dificuldade foi sair do sensual e ir pro erótico, sem descambar para o pornográfico. Pode parecer tudo a mesma coisa, mas há um limite bem tênue. Achar o limite tênue é complicado.

Depois de receber meus exemplares, ao ler o conto, quase caí pra trás. Tive a crise PP (Pós-Publicação) que ocorre com muitos autores. Eu escreveria de um jeito diferente. Não só verificaria a linguagem, o uso repetitivo de palavras. Ia fazer uma senhora revisão gramatical (verbos em tempos diferentes e pontuação duvidosa) e mudar a formatação. Usar itálico em dois parágrafos inteiros não funcionou nada bem. Ficou muito chato de ler! Mas, enfim, vivendo, publicando e aprendendo.

Se você estiver a fim de adquirir seu exemplar da Antologia, invada o site do Clube dos Autores.

"E o conto, pô?" 

Ah, sim! Claro! Vou deixá-lo na íntegra, ok? E exatamente igual à publicação. Não reformatei, para que todos possam comprovar seus defeitos (Atenção! No blog, os parágrafos tabulados se perdem, por isso o espaçamento de linhas).


Lenço Vermelho
Nuccia De Cicco

"Era cada vez mais difícil passar despercebida. Sob a intensa luz do final da manhã, meus longos cabelos ruivos ficavam praticamente alaranjados. Os que sobreviveram após a invasão eram extremamente parecidos, com tons de cabelo escuros, pele pálida e olhar embaçado. Refletiam medo, insegurança e desesperança.

Maldita hora em que fui perder a boina. Devia ter sido à noite, como sempre, mas ele tinha deixado a mensagem na janela logo ao alvorecer. Totalmente imprudente, mas seria seguro. Senti um formigamento na nuca, uma sensação de vigilância. Ao desviar de um rapaz magro, relanceei um olhar para trás e percebi que estava mesmo sendo vigiada. Três deles parados na última esquina; o mais alto, obstinadamente fixado em minha figura.

Abaixei mais minha cabeça, tentando não deixar muito óbvia minha vontade de sumir. Encurvei ligeiramente e, como um milagre, na exata hora em que o alto parecia disposto a me seguir, uma carroça cheia de caixas passa bem entre nós dois. Empurrei três outras almas perdidas apenas para entrar no beco mais próximo. Direto para a sombra. Rápido para o fundo, uma virada à esquerda, passos largos até o próximo prédio baixo, sem saída. Droga. Apressei-me um pouco mais, encontrei outra ruazinha e consegui retornar à via principal, bem adiante deles. Ali, poucos circulavam, os prédios fechados eram mais altos e sombrios. Avistei uma janela aberta, um pedaço de tecido meio para fora. Odiava roubar, mas era preciso. Puxei o pano rapidamente, era um terço de um lençol velho que, um dia, fora azul. Da janela, observei pessoas largadas no chão, imóveis. Não seria roubo, afinal.

Parei por alguns minutos, tentando ajeitar o pano na cabeça e me orientar. Olhei ao redor. Ah, ali estava! O sinal continuava visível na janela. Mais duas ruas transversais, e eu estaria lá. Cabeça baixa e olhar atento, deixei minha mente vagar para as lembranças daquele dia. A primeira vez. Tudo por causa de um erro estúpido meu.

Chovia muito e eu corria desesperadamente. A sola do tênis velho escorregava na lama, a roupa pesava. Atrás de mim, cinco deles. Os cinco sobreviventes da última façanha da resistência. Dois de nós conseguiram se misturar, mas meus cabelos me denunciaram. A boina, já desnecessária, estava amassada na mão direita. Quase sem fôlego, dobrei uma esquina e me vi presa numa ruazinha. Já em pânico total, encontrei uma brecha na parede de um prédio fechado. Sem alternativa, me joguei dentro com tudo e procurei tapar o buraco com madeira velha. Afastei-me da entrada com pressa, encontrei uma escada e subi até o terceiro andar sem, ao menos, parar para respirar. No alto da escadaria, agachei-me e fiquei escutando. Silêncio total. Só então, notei que rasguei minha blusa, ficando praticamente nua da cintura para cima. Mas não relaxei um músculo, contanto os segundos. Após um tempo longo, engatinhei pelo corredor comprido e entrei em um dos apartamentos de porta aberta.. Do outro lado do cômodo, uma janela suja. Resolvi espiar a rua. Um, dois, no terceiro passo, meu pé desceu. Minha cabeça bateu no piso, fazendo um baita som e eu, bem... Desmaiei com a porrada. Quando acordei, eu estava amarrada, presa a uma pilastra e com uma venda sobre os olhos. Foi nessa hora que ouvi sua voz suave, baixa, rouca e hipnotizante pela primeira vez. Foi quase íntimo demais.

“Nem se esforce. Só irá se soltar quando eu quiser.” A ameaça implícita fez meu sangue se agitar. Mas era mesmo medo? Respirando com força, continuei a forçar e forçar. Até que ele riu baixo e o ar quente do seu hálito roçou minha nuca. Em choque, tentei me erguer, com os pulsos às costas. Pilastra maldita! De repente, senti um deslocamento para cima e meus pés se firmaram no chão. Ele me erguera com muita tranqüilidade, pela cintura. As cordas estavam frouxas? Senti seu hálito quente próximo demais do meu rosto e só aí me lembrei do estado vulnerável da minha blusa. Devo ter ruborizado. “Ah! A fugitiva, invasora e linda é capaz de sentir vergonha...” Seu toque leve em meu rosto deixou-me quente. Ali, em frente a um total desconhecido, eu sentia... Atração? “Se você prometer não correr, eu soltarei você. O chão daqui é antigo, está cedendo em certos pontos. Tenho uma blusa pra você. Tenho comida. Mas você deve permanecer com a venda.” Mas, hein? Ficar vendada? Antes que eu pudesse concorda ou discordar, ou mais certamente me revoltar, a pressão dos braços diminuiu. Algo quente foi colocado em minhas mãos recém-libertas, era pão. Devorei em segundos. Depois, um tecido. “Como vou saber se você não vai olhar eu me trocar?” A resposta demorou a vir. “Não vai.” Silêncio. Fiquei sem saber o que fazer por um momento, até que dei de ombros, tirei a camiseta rasgada e me embolei ao tentar enfiar a nova. Quando bufei, pronta para tirar a venda, senti suas mãos ajeitarem a blusa e puxarem o tecido para o devido lugar. Estava bem ali, próximo demais. Seu tórax roçando meus seios. Seu hálito, cheiro de maçã e seu corpo... Cheiro de homem, sem perfume. Era como eu? Ou inimigo? Ou só mais um dos pálidos, esperando a morte? “Quem é você?” A resposta foi, ao mesmo tempo, enigmática e reveladora: “Ninguém que você conheça, mas eu já conheço você.” Então, uma carícia leve desceu pelo meu braço esquerdo. Retesei-me, preparando a fuga, quando sua voz fez-se ouvir, um sussurro cálido, envolvente. “Se você me quiser como companhia, deixe o lenço. Quando for seguro, ele estará na janela e bastará você voltar aqui. Dará para você ver de onde vive.”. Quando tirei o tecido dos olhos, não havia ninguém ali, ele foi bem rápido. Voltei meus olhos ao tecido: limpo, praticamente novo, vermelho. Um lenço vermelho.

Eu não iria voltar, óbvio. Mas, algumas noites depois, estava o telhado onde me escondia, e ao ver a mancha vermelha, um calor se acendeu em mim. Quase impossível resistir. Hoje é a quinta vez. Cheguei à mesma ruazinha, andei casualmente até a brecha da parede, empurrei o entulho, entrei e fechei tudo novamente. Subi e entrei no apartamento. Desviei do meu buraco e peguei o lenço vermelho preso no vidro quebrado da janela. Olhei o tecido em minhas mãos por alguns segundos, suspirei e me vendei. Fiquei ali parada até ouvir o rangido de uma tábua. Então, dei meia-volta e, lentamente, deixei o vestido que usava hoje ir ao chão. Não demorou nem um arfar e suas mãos já estavam em minha cintura, seu corpo atrás de mim, sua boca em meu pescoço. Urgência, sempre esta sensação. Não pude me desvirar, fui empurrada contra a parede. Seu corpo se afastou e suas carícias tornaram-se mais lentas, deliberadamente lentas, uma tortura. Descendo ao longo da minha coluna, acompanhando a curva das minhas nádegas, um beijo, uma mordida. E então, subindo pelas coxas e quadril, agarrando minha calcinha, descendo bem devagar. Um suspense e seus dedos deslizaram por sobre meus seios, beliscaram, desceram pela barriga, explorando cada pedaço meu. Ansiei pelo seu toque em meu ventre, dentro de mim. Quente, urgente. O abraço dos dois corpos se estreitou e pude senti-lo, ereto, exigente. Num deslize deliberadamente mais lento, seus dedos me tocaram, entrando e saindo. Então, quando um gemido escapou de meus lábios, meu quadril foi puxado para trás e ele se afastou. Era sempre assim, estar com o lenço era só sentir, adivinhar o que ia ser feito. Nunca saber. Inebriante. Um jeito tão diferente do que eu estive acostumada, só de colocar o lenço vermelho eu já ficava molhada. Gemi outra vez, impaciente, e logo senti sua dureza em minhas nádegas novamente. Soquei a parede, impaciente. Ele riu, mas entrou. Era impossível me controlar, então eu acompanho seu ritmo, movendo os quadris de forma provocativa e deliberada. Dele escapa um som gutural, as investidas aumentam, eu me inclino mais, rebolo mais e recebo umas palmadas. Mais rápido, mais forte! Sua mão direita desliza pelo meu quadril até meu clitóris. A fricção aumenta conforme a rapidez com que ele me penetra. Era, era... Ò céus! Sinto os espasmos começarem, aumentarem. Mesmo vendada, vejo luz e estrelas. Sua invasão chega ao auge e, meio rosnando, sinto seu gozo esvair-se em mim. Achei que fosse desabar, mas ele, rindo, me deita no chão. Poucos minutos se passam, até que eu o beijo da forma mais libidinosa que conheço, empurro seu corpo ao chão e subo nele. Eu o faço gozar assim, montada como uma deusa ruiva no seu mais poderoso guardião.

– Eu nunca poderei vê-lo, não é? – Era uma constatação. Usar a venda ainda era excitante, mas eu queria mais. Estávamos deitados então, eu com meu rosto voltado para o teto.

– Talvez. – Taciturno como sempre. Se levantou, ouvi o farfalhar de tecidos. Após uns minutos, sua mão segurou a minha. Deu-me minha roupa e se afastou. Já acostumada a me vestir sem ver, lamentei apenas pela ausência de um espelho. O que era ridículo, já que eu permanecia vendada. Pequenos ruídos revelaram que ele estava à minha direita. Num ímpeto, dei um passo e segurei-o pelo braço. Cheguei mais parto, o suficiente para ficar à sua frente. Deslizei minhas mãos por seu tórax, percebendo sua roupa. Camisa de mangas longas, gravata. Minha nossa, quem se vestia assim nesses dias? Quem ele era? Toquei seu rosto, senti novamente sua barba por fazer, sua boca de lábios grossos. Ele segurou meu pulso e lambeu meus dedos. Então sua boca estava novamente em meu pescoço, enquanto ele me erguia em seus braços e me colocava sobre um móvel qualquer.

– Às vezes, eu acho que nunca irei ficar satisfeito. – Meu vestido foi erguido e seus dedos me encontraram novamente. Beijos, gemidos, e toques. Um movimento rápido, e, ao invés de seus dedos, senti sua língua me penetrar. Ele não parou de lamber, chupar e morder, arranhar com barba. Agarrei seus cabelos, impedindo-o de sair. Gemendo cada vez mais alto, quase caí pra trás quando o orgasmo veio. E, tão rápido quanto começou, ele se afastou.

– Deixe o lenço. – A tábua rangeu e eu soube que ele tinha partido. Ainda ofegante, tirei a venda. Aturdida, e, novamente sem nomes ou explicações, fiquei ali, meio perdida. E decidi que já era hora.

Na rua, comecei a sentir um pânico, um vazio. Não ia dar, tinha que voltar e deixar isso lá. Dei meia-volta abruptamente e esbarrei com tudo em alguém alto e musculoso atrás de mim. O lenço vermelho escapou de minhas mãos, e foi chutado por sei lá quem. Desesperada, empurrei a pessoa sem a ver ou me desculpar e consegui pegá-lo de volta. Eu arfava.

– Deveria ter deixado lá. – Uma voz, a voz, atrás de mim. Gelei. Quando finalmente olhei, só havia um terno azul ao longe."


Leia este e outros contos no meu perfil do Wattpad:


Espero que tenham gostado!

Até + ver!




12 comentários:

  1. Olá, respondemos a TAG e agradecemos por nos indicar. Foi um prazer!
    Beijo

    http://curaleitura.blogspot.com.br/2015/01/tag-liebster-award-2015.html

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    1. XD Valeu!! E olha que legal! Nath faz Dança do Ventre também!

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  2. Primeiramente parabéns pelo conto ficou muito bem escrito e bem detalhado. Adorei ver que você utilizou a palavra "taciturno". Faz muito tempo que não a leio. Eu sei parece besteira.

    Sucesso para você e que mais contos venham


    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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    1. Oi, Helena!
      Este foi o segundo ou terceiro conto que escrevi depois de começar a carreira. Eu sempre acho que posso melhorar.
      Sobre o uso de 'taciturno'... rsrs... Apenas flui! Não é uma tentativa de escrever bonito (até pq, bonito mesmo não está).
      Obrigada pela leitura e comentários!
      Abração!

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  3. Olá!
    Parabéns pelo conto. Acho que sempre que escrevemos algo queremos mudar, rearranjar a forma - isso acontece sempre comigo.
    Espero que você tenha a oportunidade de aprimorar, cada vez mais, sua escrita - que já é muito boa.
    Beijos e feliz ano novo :)
    http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Bruna!
      DPP é um problema sério! Meu livro nem publicado foi e eu já vejo o que mudaria! rsrsrs...
      Obrigada pela leitura e pelos elogios. O importante é saber da opinião de vocês (please, se estiver uma porcaria, pode dizer!)
      um beijo!

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  4. Olá,
    Eu não gosto de contos/livros eróticos, mas o seu conto está incrível. Meu sinceros parabéns. Sobre a questão do livro não ter ficado do jeito que você queria, isso é bem normal. Meu conto também não ficou do jeito que eu queria, mas sempre há uma segunda edição para nós salvar kk'.
    Um beijo,
    Delírios Literários da Snow

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    1. Oi, Carol!
      Que bom que gostou! Tentei mesmo não deixá-lo com jeitão "50 Tons..." pq não faz meu estilo!
      Um dia a gente se cura da DPP! XD
      Obrigada por vir!
      bjs!

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  5. Oi!!!


    Amei o conto, parabéns!

    É bom saber que não sou a única "louca" que escreve, a sensação é ótima né?

    Beijos!!


    :)

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    Respostas
    1. Hahahaha... não é mesmo!
      Bora abrir um hospício!
      XD

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  6. Nu!!! Que lindo!! Você é hiper talentosa! É um conto bem forte e mesmo não curtindo o gênero, você conseguiu me prender até o final, porque eu queria saber como seria o clímax e você me surpreendeu, parabéns!! Beijos

    http://livrosepergaminhos.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Ei, Suzi!
      Imagina, garota...! Este é um dos meus primeiros contos, tenho alguns melhores, outros piores... mas sepre podemos melhorar!
      Obrigada por vir e por ler! Vc é de casa!
      BGU forever!
      beijo-Ka!

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Seja legal: aumente nosso ego deixando seu comentário!
Mas, ei! Cuidado aí! Sem comentários ofensivos!
Um imenso obrigado de todos nós!

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