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domingo, 19 de julho de 2015

2 5 outras coisas que você não sabe sobre Surdez

Alou, gente meiga!

Que tal sanar mais algumas dúvidas sobre surdez?


Segue, então, uma nova listinha de ideias angustiantemente ridículas sobre o que a sociedade em geral pensa sobre surdez. 

Você não leu a primeira lista da série "5 coisas"? Leia AQUI!

A intenção continua sendo desmistificar a surdez como um potente fator de segregação. Para isso, tenham em mente duas coisas: ser surdo não é ser incapaz e preconceito disfarçado continua sendo preconceito.

Então, partiu!

5 outras coisas que você não sabe sobre surdez:

1 - Surdos não podem dirigir, pois não ouvem buzina.

"Quando eu penso que já li de tudo..."

Engana-se você que acha que alguém com surdez profunda não pode dirigir simplesmente por não ouvir. De acordo com a resolução n.º 168, artigo 4, do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), surdos e/ou deficientes auditivos (não vou entrar nesta discussão de novo), com perda auditiva igual ou superior a 40 decibéis podem tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), nas categorias A (motos) e B (carros), desde que sejam aprovados no exame de aptidão física e mental.

Se você quer saber mais ou menos como funciona o processo, acesse AQUI e AQUI.

E, adivinha só? Existem autoescolas especializadas em ensino de direção para quem se enquadra nessa especificação. Bom, na verdade, todas as autoescolas deveriam poder oferecer o serviço a DA/surdos, MAS... Só algumas possuem intérpretes ou aceitam presença de alguém que sirva de 'ouvido emprestado'. As especializadas possuem intérpretes próprios, devidamente assalariados. Além disso, as apostilas são adaptadas e há vídeo-aulas em Libras. E, para os surdos oralizados, que não usam sinais, é liberada a presença do acompanhante. São bem poucas escolas, mas existem.

A prova escrita ainda é em português. Apenas o estado de Santa Catarina possui prova totalmente em LIBRAS (Notícia). Mas, solicitando um intérprete oficial na Feneis, o surdo/DA que sabe Libras pode fazer a prova tranquilamente. Entretanto, se não sabe língua de sinais, há um entrave, pois é proibido acompanhamento durante as provas.

É interessante manter em local visível o símbolo internacional da surdez (a orelinha cortada). Assim, os demais motoristas e agentes de trânsito estarão devidamente informados que o condutor é surdo/DA. Não é obrigatório, mas é recomendado pelo Detran.

Não é fácil. Em muitas cidades, ainda não há disponibilidade de intérpretes no DETRAN, impossibilitando os surdos sinalizados de conseguirem sua CNH. Achei uma notícia que explica isso: apesar de ser de 2013, a realidade ainda é esta.

Portanto, esse negócio de que não dirigimos porque não ouvimos, seja buzina ou apito ou um mal-educado xingando, é pura besteira. Surdos no volante, sim!





2 - Surdos nunca namoram/casam com ouvintes.

O.o

Não há como negar que a barreira da comunicação pode ser um problema para a formação de relacionamentos. Mas, não é um impedimento total. É como dizer que pessoas brancas não podem namorar ou casar com pessoas negras, ou com índios, ou judeus, muçulmanos, ou com cegos, cadeirantes, ou ainda com pessoas de rendas/classe social e idades diferentes. 

Isso, diga-se de passagem, é um tremendo preconceito. Largue essas ideias arcaicas! Pare de ser elitista. Desapegue desses conceitos mesquinhos.

Surdos, sejam sinalizados ou oralizados ou bilíngues, podem namorar, casar, transar, ficar, seja com surdos, com Surdos (sim, tem diferença entre surdos e Surdos) e com ouvintes. Não é fácil, mas, paradoxalmente, é simples: basta um esforço pessoal.

É comum, no entanto, os Surdos (aqueles integrantes da comunidade Surda) não quererem manter um relacionamento com ouvintes. Além da ausência/impedimento de uma comunicação total, muitos afirmam que não há uma identificação cultural, social. Mesmo assim, conheço Surdos que são casados com ouvintes. 

E os outros surdos e deficientes auditivos (DA)? Aqueles que não fazem parte da comunidade, seja lá por qual motivo? Aqueles como eu? A maioria namora e/ou casa com ouvintes.

O que eu acho? Quando há vontade de aprender, há troca, seja afetiva, comunicativa ou cultural. Resta saber se as pessoas envolvidas QUEREM mesmo tentar essa troca, aprender com ela. Nem todos (Surdos, surdos, DA ou ouvintes) estão dispostos a saírem do seu mundinho, a mudar suas perspectivas. Sim, sempre tem um que quer me bater quando falo assim. Desculpa, mas não vou mudar de opinião só porque alguém se emputeceu.

Quer saber como uma relação entre surdo e ouvinte pode funcionar, com um pouco de calma e esforço? Leia este depoimento, feito no blog Crônicas da Surdez >> Namoro Entre Ouvintes e Surdos.


3 - Surdos não podem morar sozinhos.

"Mas, hein?"


A primeira coisa que você deve saber é que pessoas com perda auditiva leve, severa ou profunda podem fazer praticamente qualquer coisa que um ouvinte também faz, incluindo se formar em medicina. É difícil e, dependendo da independência financeira, pode ser complicado. Há riscos de acidentes, e alguns entraves. Porém, com os avanços tecnológicos atuais, existe adaptabilidade para quase tudo! E um pouquinho de esforço pessoal ajuda.

Para uma moradia, por exemplo, o que pode ser feito? Com ajuda de um ouvinte, identificar os sinais sonoros principais (campainha e telefones, por exemplo) e adaptá-los. Como? Por serem indivíduos com maior percepção visual, o melhor é a adaptação ir pelo mesmo caminho:  ligue os sons na luz! É sério! Isso pode ser feito em ambiente de trabalho também: faça a ligação elétrica entre a campainha da porta e uma lâmpada, de preferência colorida. Sempre que alguém tocar a campainha, a luz acenderá! Em casa, tenho 3 delas (sala, quarto e cozinha):



Ah! Mas se a pessoa morar em prédio? Como fazer com o interfone? Hum... é um pouco mais caro, mas... conhece video-fone? Pois é! Acoplado com uma luz ou alerta vibratório!



O telefone? Existe um tal de telefone especial para surdos/DA, mas é um inferno na terra usa-lo e é outro inferno consegui-lo. O TDD é um telefone acoplado a um teclado. Você só pode usar o TDD para falar com outro TDD, logo se você quer falar com a empresa de cartões de crédito, por exemplo, e eles te mandam ligar par o 0800 de deficientes, você precisa ter o infeliz do TDD em casa. Fui pesquisar como comprar o TDD. Consegui achar uma única empresa que vende essa coisa no Brasil. E não consegui contato com ela. Pra piorar, além de comprar o aparelho, você precisa falar com a empresa telefônica para liberar a linha para esta tecnologia. E quem disse que as empresas telefônicas sabem fazer isso? Eles nem sabem o que é TDD! Acha que sou um caso isolado? Pois se enganam >> Leiam AQUI!



Com sinceridade, pra mim, o TDD é uma coisa ultrapassada. Eu uso os aplicativos do celular: IMO, é muito mais pratico manter uma conversa em vídeo, especialmente para surdos sinalizados; E o Whatsapp é perfeito para quem sabe bem português. Pena que os bancos e cartões de créditos não aceitam nem A, nem B. :(

Para os surdos oralizados, os que conseguem perceber poucos sons, há aparelhos que indicam quando um telefone comum está tocando (por vibração ou luz) e outros que amplificam o som emitido pelo fone ou o som do toque. 

Ah... O surdo/DA mora sozinho: como acorda e não se atrasa? Duas palavras: Despertador Vibratório. Nem vou me estender.

Existe até sistema de alerta contra incêndios!

Há muita tecnologia assistiva. A maioria de grande porte, mas existem algumas que você pode usar no pulso (chocada com o bracelete vibratório de 5 alarmes!). O problema é que a maioria é importada e de custo (relativamente) elevado.

Uma postagem do blog Crônicas da Surdez mostra vários desses apetrechos, indicando até o site de compras. Acesse AQUI.

Na Assistech Special Needs também existem diferentes apetrechos que facilitam a vida de um surdo.




4 - Educação inclusiva é só um surdo frequentar uma escola normal.

"Sério, gente?"

Segundo nosso querido site Wikipedia, a Educação Inclusiva pode ser descrita como: "uma reestruturação da cultura, da prática e das políticas vivenciadas nas escolas de modo que estas respondam à diversidade de alunos. É uma abordagem humanísticademocrática, que percebe o sujeito e suas singularidades, tendo como objetivos o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social de todos."

Isso é lindo de ler. Mas, a prática é um bocado diferente e a inclusão verdadeira difícil de alcançar.
P.S.: Eu NÃO SOU da área educativa, mas pesquiso e trabalho com quem é; eles me ajudaram.

A primeira coisa a ser lembrada é: Ensino Integrado é diferente de Ensino Inclusivo. Na modalidade de Ensino Integrado, a criança é vista como portadora de um problema e precisa estar em contato com os demais para superar e se adaptar. A Educação Inclusiva pensa na cultura e sociedade, percebendo a diferença e que a escola precisa ser transformar para atender às necessidades dos educandos, com ou sem deficiência. Incluir não é igualar; é respeitar a diferença.



E, há ainda outros pormenores que precisam ser avaliados, como: 
   - 1) a aquisição da língua oral para surdos, em especial os nascidos ou pré-linguais, não ocorre naturalmente (como para ouvintes). Para muitos deles, o português será sempre a 2ª Língua e para ser adquirido precisa de acompanhamento com fonoaudiólogo. E, lembrando, pais Surdos muitas vezes NÃO querem que seu filho aprenda português, o que é um direito deles; 
   - 2) leitura labial não é fácil, e não é para qualquer surdo - ajuda os surdos pós-linguais, mas não são todos;
    - 3) O intérprete de Libras não é um substituto do professor, não é pedagogo, nem especialista nas ciências ou matemática. Ele traduz, auxilia e entende o ponto de vista do aluno. Ponto.



Eu poderia continuar infinitamente, mas não há postagem suficiente para isso. Recomendo, então, a leitura de um artigo da Paula Botelho (Mestre em Educação pela UFMG), disponibilizado na internet (está em PDF) >> Educação Inclusiva para Surdos: desmistificando pressupostos.

Ainda não há uma verdadeira inclusão, não estamos nem chegando perto.

5 - O Implante Coclear é a cura da surdez.

"Ah, não, péra...!"

O implante coclear (IC) é uma Tecnologia Assistiva mais moderna que os aparelhos auditivos (AASI - Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) e específico para quem possui perda auditiva total ou profunda, de caráter neurosensorial. É como uma prótese de braço ou perna, só que o IC substitui seu sistema auditivo interno.

O IC é diferente dos AASI pois, ao invés de apenas amplificar a vibração do som, também auxilia a transformação do mesmo em impulsos para que possam ser percebidos pelo cérebro. 

É composto de duas partes, uma interna e outra externa. A parte externa é um processador da fala, composto por um microfone, que capta os sons e envia para a parte interna através de uma antena de rádio. A parte interna é implantada no crânio, logo atrás da orelha. Possui eletrodos que transformam o som em impulsos elétricos a serem identificados pelo sistema nervoso central do usuário, funcionando como um substituto auxiliar da cóclea, a parte do sistema auditivo que capta as vibrações e as transforma em impulsos nervosos, e que costuma ser defeituosa em pessoas com surdez total. Como qualquer aparelho eletrônico, só funciona com bateria. 

Se um usuário de AASI o retira, desliga ou fica sem bateria, ele não irá ouvir. Se um implantado desliga o IC ou a bateria acaba e não tem outra para substituir, ele estará no silêncio novamente. 



Qualquer pessoa com perda auditiva é candidata ao IC? Não, e mesmo que seja fisicamente candidato, precisa ter acompanhamento psicológico antes e depois da cirurgia, podendo, algumas vezes, não receber recomendação para efetivamente ser implantado.

Por tudo isso, não são curas!!

Como eu, pessoalmente, não posso opinar a respeito dos AASI e do IC, já que não sou usuária (por impedimento físic da minha doença), sugiro a leitura das biografias das autoras Lak Lobato [Desculpe, não ouvi] e Paula Pfeifer [Crônicas da Surdez” e “Novas Crônicas da Surdes-Epifanias do Implante Coclear] sobre o que as tecnologias trouxeram para suas vidas. Vocês também podem visitar seus respectivos blogs:

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E agora? Acham que conseguem ser bacanas quando esbarrarem com a gente?

Vou deixar mais alguns outros links para vocês fuxicarem à vontade! Foram selecionados com o intuito de ajudar ainda mais a inclusão e acessibilidade.
Até + ver!





2 comentários:

  1. Nuuuuuuu do céu, engraçado que quando penso em surdez eu não imagino o tanto de dificuldade que passam... Caraca esse post é mega esclarecedor e didático, parabéns!!

    Bjokas!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Giu!!!
      Sabe que eu sempre tento ser didática nas questões explicativas, assim fica mais fácil de me fazer entender... Às vezes, peco e nem sempre sai bom, mas funciona. Que bom que te ajudou!
      Eu mesma nunca prestei atenção a tais detalhes até que aconteceu comigo.
      Obrigada por vir!
      bj-Ka!

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