domingo, 26 de julho de 2015

0 [Nuccia em Prosa] - Conto "Curiosidade"

Bom dia, pessoas!!!

Hoje é dia de encher a minha bola, de aumentar meu ego, de elevar meu astral...

Apresento a vocês um conto criado em 2014 que teve a audácia de ser selecionado para integrar uma antologia em homenagem a Stephen King!!

"Curiosidade" não foi o primeiro nome do conto. O primeiro nome foi avaliado como muito óbvio. Por indicação, precisei trocar o título para algo mais sugestivo, algo que indicasse o tema sem ser tão explícito. Nele, Ana, uma chef bem sucedida, encontra um alçapão embaixo da sua cama. O interessante é que Ana mora no último andar de um pequeno prédio; seu apartamento é um loft e a cama fica em um mezanino. O que será que há dentro daquele alçapão?

A Antologia "Eu me ofereço - Tributo a Stephen King" foi organizada pela nossa parceira Rô Mierling, publicada pela editora parceira Illuminare e lançada em Dezembro do último ano. Todos os contos envolvem mistério, terror, suspense, e/ou paranormalidade.

Vamos?


Curiosidade

Ana era uma boa multi-tarefas, recém-formada em um curso de culinária mexicana. À noite, ela gostava de testar receitas novas, mas esquecera o livro na bolsa em seu quarto. No entanto, pegar o livro enquanto tentava abrir um pote de azeitonas, não foi inteligente. Em especial, às cinco para meia-noite.
Todas as azeitonas espalhadas pelo quarto foram relegadas a segundo plano diante daquela porta sob a cama. Não parecia estranha, mas o fato de haver um alçapão no segundo piso de um loft, situado no sétimo andar de um prédio, era, no mínimo, pitoresco.
Observava com intensa curiosidade aquela porta de madeira envelhecida e totalmente lacrada no chão. Lacrada mesmo, pois seu esforço ao tentar abri-la foi quase uma piada. Deu alguns passos para trás, até bater o quadril na varanda do mezanino onde ficava seu quarto. Sua intenção era ‘olhar a cena de fora’, porém quase caiu lá embaixo ao escorregar numa azeitona solitária. Percebeu, ainda, estar chapinhando em líquido de conserva. Já exasperada consigo mesma, saiu de perto dos cacos de vidro, tirou os sapatos e desceu para buscar o material de limpeza e um pote plástico qualquer.
A limpeza demorou mais que o esperado, mas o alçapão continuava lá.
– E isso, agora? – Cansada, enfim, de não resolver o mistério do ‘quase-porão’ no seu quarto, Ana recolocou a cama tipo box no lugar, soltou os cabelos castanhos e foi tomar um banho. Quando deitou, a porta estranha estava quase esquecida. Quase.
          Durante a tarde do dia seguinte, o mistério do porão sob a cama já havia sido esmiuçado, mas não chegara a solução alguma. No restaurante de estilo europeu em que trabalhava como chef, Ana chegou a misturar os pedidos, coisa que nunca fez. Ela sabia que Cristina, a gerente e uma de suas poucas amigas, evitava intrometer-se na sua vida reservada, exceto se o assunto era homem. Então, quando ela se aproximou ao final do expediente, de cara amarrada, Ana já sabia que não haveria escapatória.
          – Pode explicar. E espero que o problema não seja o Sandro. – direta, como sempre. Ana gemeu. Não que o Sandro fosse o problema, mas também não era a solução.
          – Não é o Sandro. Estamos, hum... bem. Encontrei algo estranho no... no prédio ontem, ainda não entendi bem o que é e isso está me distraindo. – As hesitações não passaram despercebidas, já que a amiga ergueu uma sobrancelha.
Ana não queria mentir e também não queria dizer que coisas estranhas estavam aparecendo em sua casa. Foi salva pelo toque de música mariachi no celular, indicando que sua mãe, finalmente, dava sinal de vida. A mãe, em um cruzeiro longo demais no Caribe com o mais novo par romântico, disparou, sem se deixar interromper. Cristina, que já conhecia os ímpetos tagarelas de D. Lúcia, fez o gesto de ‘me aguarde’ e deixou Ana ir para casa.

          Sua bolsa havia ficado no sofá, a roupa não foi trocada, a cozinha não foi usada e a cama estava novamente colada à parede mais distante do quarto. O telefone tocou e caiu na secretária pela terceira vez naquela noite. “Eu não esqueci sua cara de alívio quando o celular tocou, não. Pode atender. (pausa) Ana! (pausa) Ana Clara, não ouse me ignorar por causa de outra receita mexicana! Droga. Já ligo de novo, o Sandro está na outra linha, beijo.” Ela teria que arranjar um jeito de terminar com Sandro. Encher a paciência de Ana era uma coisa, encher a paciência dos outros para encherem a dela, já era exagero. Seu estômago roncou. Ela não queria sair do quarto até conseguir abrir a droga daquela porta, mas, a isso, teria de ceder.
          Fechava a geladeira quando uma porta bateu ao longe, um som abafado. Ana começou a achar a vizinha nova muito escandalosa. Não ficou nem cinco minutos no andar principal do loft, porém, ao retornar ao quarto, quase deixou o iogurte cair. Não foi a vizinha. O alçapão estava escancarado.
          – Como é que raios você abriu? – Parou na beirada, uma colherada a meio caminho da boca, olhando dentro. Tirando uma fumaça, não tinha nada. A fumaça se elevou e se enroscou em seus tornozelos. Era gelada e dava uma sensação opressiva. – Névoa, não fumaça. Agora, onde eu guardei aquela lanterna? – Mas nem chegou a se afastar um passo, pois percebeu um piscar lá embaixo.
          Ao se ajoelhar, largou o iogurte semi devorado ali mesmo no chão, inclinando a cabeça para dentro do buraco. Havia realmente uma luz, eram dois pontinhos de luz azul, um tanto desnorteados. E foi aí que encontrou a escada. Ela pensou duas, mas não três vezes antes de descer. Escorregou uma vez, mas manteve o equilíbrio até chegar ao chão firme. Lá, a névoa era mais densa, mais gelada e rodopiava esporadicamente; a sensação de opressão, no entanto, sumiu quando Ana percebeu se tratar de um amplo espaço. Um amplo espaço bem escuro. Seguiu as luzes, tentou agarrá-las, mas eram rápidas. Decidiu ignorar e explorar melhor ali.
          Ana não encontrou as paredes, confirmando a amplitude do lugar. No entanto, se a névoa se movia, deveria haver uma entrada de ar. Ela continuou caminhando, o frio aumentava. Quanto mais longe das luzes, mais escuro. A sensação agora era a de se encontrar num limite para um outro mundo, estranho, sombrio, sem calor, faminto. E de estar sendo observada.
Ao girar sobre si mesma, seu braço direito atingiu um ponto onde havia uma lufada de ar. Ali! Ali deveria ter... O quê? Intrigada e destemida, Ana moveu o braço novamente e sua mão desapareceu por uns segundos. As luzes se aproximaram pelas suas costas e Ana pôde ver o ar à sua frente ondular, como uma superfície de um brejo que foi perturbada em sua calmaria.
Respirando profundamente, já decidida a ver aquilo melhor, ouviu um chapinhar e foi atingida por um cheiro horrível, de algo podre ou estragando. Deu alguns passos para trás e, então, um bafo mais gelado do que a névoa atingiu seu pescoço. Ao se virar, Ana percebeu que as luzes não estavam mais voando, só paradas ali, uma ao lado da outra, uns dois metros acima do chão, intensas. O único pensamento de Ana foi “Alto...”, e a porta cedeu. Ficou muito mais escuro, então. E doeu.

          Ana não foi trabalhar no dia seguinte, nem nos três outros depois. Naquele mesmo dia, Cristina já havia tentado invadir seu apartamento, sendo impedida por um vizinho. Agora, depois do registro do caso, ninguém mais poderia entrar lá. D. Lúcia encerrou seu cruzeiro duradouro. A perícia foi chamada, mas não havia provas suficientes. Cristina foi interrogada vezes sem fim, em especial por tentar invadir a casa de Ana. Sandro, o quase namorado, foi detido e liberado.
          O loft, bem localizado, decorado com requinte e bom gosto, foi desvalorizado por ser local de um ‘crime’. Seu interior sempre organizado, com exceção daquelas peculiaridades fora do lugar, como a cama, a bolsa, um iogurte estragado e a ausência de comida pronta na cozinha, ficou à deriva. Ana simplesmente sumiu.

Para Cristina, a casa de Ana sempre pareceu um tanto vazia. Sem crianças, plantas ou animais, nem mesmo uma indicação de presença masculina. Mas, agora, dois anos sem Ana, o apartamento dava a impressão de nudez, de crua exposição. A pedido de D. Lúcia, ela foi separar os itens pessoais das prováveis doações. A morte presumida somente seria declarada em oito anos, mas as despesas e a esperança não poderiam esperar até lá. Com um breve suspiro, ela largou a bolsa no sofá e subiu as escadas até o mezanino. Ana havia deixado a cama fora do lugar. Ninguém a moveu de volta.
Após quase seis horas mexendo, arrumando e chorando, Cristina sentou-se no chão logo à frente da posição antiga da cama, apoiada no gradil e cochilou. Um baque surdo, de porta batendo, a despertou quase inteiramente. Demorou uns minutos até seus olhos se acostumarem às luzes ofuscantes do quarto. Instintivamente, olhou o relógio: quase meia-noite. Então, percebeu nitidamente um alçapão aberto a um corpo de distância.
– Mas que...! – Um porão? Num loft? E... quem abriu?
Aproximou-se devagar, de quatro, prendendo uns cachos atrás da orelha. O ar que saía era gelado, pesado e era impossível ver qualquer coisa. Ela sentiu ímpetos de falar, mas um breve piscar na escuridão a interrompeu: duas luzinhas azuladas dançavam para cima e para baixo, aleatoriamente. Tinham luz suficiente para que Cristina pudesse ver as escadas de madeira. E se Ana estivesse presa ali? Maldita esperança. Por fim, ela desceu, pé ante pé, cheia de receios, seguindo as luzes que se afastavam mais para o fundo do lugar.
– Olá? Ana? Você está aqui? – Era enorme e muito escuro longe das fontes de luz. Ela pensou se devia explorar um pouco mais, mesmo não querendo. Não conseguia ver seus pés, havia uma névoa espalhando-se pelo lugar, rente ao chão. Esfregando os braços para aquecer-se, deu um giro lento de 180 graus. E, então, observou aquelas luzes estranhas se movimentarem à sua frente até parecerem olhos. Ouviu um som de passos e líquidos, sem identificar bem, e um cheiro horrível atingiu seu nariz.
Cristina deu dois passos para trás, mas foi detida por um estrondo.
A porta do alçapão.

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Espero que tenham se divertido!

Até + ver!



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