quinta-feira, 13 de outubro de 2016

0 [No Umbral] [Poesia] - O Tribunal

Olá, leitores das sombras!


Sentando em minha poltrona dentro de meu Umbral, ouço uma canção de Paul Anka e encontro velhos escritos de tempos esquecidos.



É um desses velhos escritos que trago hoje a vocês. 

Vos apresento: O Tribunal.

Eu sou Orfeu Brocco, seu anfitrião e guia!






O tribunal



Parte I – Who loves the sun ?[1]

(por Orfeu Brocco)

Minhas pupilas tremem.
- Todos de pé ! – ordena o juiz
Antes que todos se levantem
O olhar acusador reflete em minha cútis.

Ao meu lado, o meu advogado,
Ele sorri, mas sei o que deseja.
Com seu sorriso dilacerado
A lei ele burla e beija!

Sou o réu,
Eles são meus algozes.
Senhoras e senhores do júri,
Tomará a palavra feroz

O promotor de acusação
Com seu olhar insalubre
Ele deforma as palavras
Ele quer minha condenação.

E eu? E eu? Somente penso
No destino que me acolheu.
Mantém-me suspenso
A uma corte de mentiras
Fecho meus olhos e lembro
Enquanto ouço palavras repletas
De ira.

Assassino, eles me julgam assim.
mas não sabem o que se passou,
Não sabem o que se passou!
Para a vida me arremessar
A este triste fim.

Senhoras e senhores,
Cavalheiros jurados,
Vocês me condenarão aos horrores,
Mas estão isentos
Pois sobre a bíblia foi sacramentado.

A vítima – minha amada,
A vítima fui eu!
Ela que não tem culpa de nada
Que diante de meus olhos apodreceu.

Olhar de uma senhora
Sobre meu semblante paralisado
Faz cair escondida uma lágrima que vem
Silenciosa e sem demora,
Deixa-me angustiado,
Deixa-me fora de órbita!

Não há mais o que condenar,
Não há mais o que condenar!
Fui vencido, fui derrotado,
Por uma onda de pesar
Por não tê-la ao meu lado.

Em algum lugar o Lusitano ri,
Em algum lugar a Amazona chora.
Em algum lugar do céu meu amor sorri
Que me venha a forca sem demora.

Você jura dizer a verdade?
Nada além da nua e crua,
Verdade?
Seja esta escondida pela rua
Ou queimada na fogueira de vaidades.

Com a mão na bíblia
Eu juro, eu juro
Mesmo sabendo o peso
Que minhas palavras trarão
E que portam a verdade
Que eu esconjuro!

Senhoras e senhores do júri
Olhem-me por um segundo,
Tenham foco na lágrima que escorre
Quando eu penso na dama do Jd. Bonfiglioli.[2]

Saibam-vos que condenarão
Este mero poeta
A mais Cem anos de Solidão
Em uma terra de vis ardis
Que há nesta cidade deserta.

Foi as vésperas do aniversário dela,
Quando eu a vi, tão fora de si
Tão fora de mim...
Mas ainda tão bela!

Eu portava os lírios,
-“ Tão belos, são belos “-
-“Sim, são um colírio!”
Diria Humbert à gentil senhora
Que implora por sua estadia
Privando-o de ir embora. [3]

Foi naquele lindo dia,
Em minha mente misteriosamente sã
O lindo sol me consumia, me perguntando:
Who loves the sun?

Deixei-lhe os lírios,
Deixei para trás um abraço
Caminhei contando os passos
E molhando com minhas lágrimas
Os meus cílios.

O juiz treme
E eu tremo por minhas exceções,
Acho que ele pensa:
- Maldita aberração, maldito processo!-
Ele bate o martelo, meu coração não bate.
- “Esta corte está em recesso.”-

Parte II – Pale Shelter [4]


Em pleno corpo de jurados,
Cai o meu corpo tremendo
E a espuma se proliferando.
Eu sei o que está acontecendo,
Novamente estou me descontrolando.

E esta boca que te beijou,
Esta face que você acariciou,
Esta torta, está torta.
O coração bate como um trem-expresso
Dando uma noção de vida
A esta alma morta.

Minha mãe chora,
Enquanto meu corpo dói e arde
A paralisia me assola
E toda corte fica em alarde.

Em algum lugar
No Cemitério da Consolação
Enquanto chove, chove, chove,
A Morte Vermelha em seu vestido
Pede gentilmente que ela acorde.

Um distinto senhor
Parecia entender minha dor.
mesmo sem entender porque
Ele pegou-me no colo,
Pôs-me sentado e se foi
Como se nunca por ali
Tivesse passado.

- Senhores – eu prossigo.
Meu corpo está paralisado,
Ao menos falar eu consigo.
Abram as cortinas,
Abram as cortinas deste novo ato,
Prosseguirei meu relato.

O tempo se foi
E eu o segui bêbado.
Tornei-me um ser esquelético,
Atormentado pelas vozes,
Pelos espasmos epiléticos,
Por comprimidos sintéticos e
Por palavras sem nexo.

Salvem-me, acabem comigo.
Viver é atravessar um mar de imensa dor.
Sejam meus amigos ou meus inimigos
Coloquem-me numa pira funerária
E derretam-me pelo calor.


Então, eu persisti,
Envelheci em meu coração
Meia década, decadentemente.
Suspirei de amor e fome,
Suspirei por ela ardentemente.

Após um ano,
Meu pesar, meus sentimentos
Cada vez mais confusos.
Meus tormentos cada vez mais profundos,
Delirium Tremens![5]
Cada vez mais sano!
Só sabia pensar em uma coisa:
- Ainda te amo -

Eis, senhores, o dia fatídico!
Do que vós chamais de crime.
Como em um filme,
Como em um filme,
O triste-alegre reencontro.

Senhores e jovens do júri,
Me perdoem por tanta eloquência.
Não sei como cheguei a este estado
Fúnebre de tamanha pestilência.
Pestilência, consequência.

Meu olhar, o olhar.
Os olhares, os soares.
Lágrimas pesaram sobre meu mar,
Foi quando toquei a face
De minha musa confusa
E vi cair sobre sua blusa
Seu rosto sangrento e apodrecido.

Cai de joelhos,
-Me perdoe, amor,
Me perdoe, amor!-
Por todo este sentimento,
Rancor. Dor, ódio,
Saudade, amor e ócio.

Meu maldito toque de Midas,[6]
Minha paixão está no chão.
Caída, caída...
Eu grito e choro.
Beijo o que restou da face.
- Sei que te amo, querida. –

Eles tentaram me deter,
Perdi meu amor.
Que mais hei de querer?
Do que uma longa estadia
Nas Florestas da Dor.

- Assassino! Homicida! – grita um senhor.
Minha mão já se mexe e procuro
Pelos lenços umedecidos
Enquanto ele me xinga
Pela narrativa enfurecido.

O juiz ordena silêncio,
O homem uma arma escondida retira
Todos da sala estão em pânico
Enquanto eu respiro, estou na mira.

Fecho os olhos, espero o tiro
Mas ele não vem! Não acredito!
Não acredito!
Libertem-me dessa prisão esquecida
Libertem esse coração,
Onde ninguém mais pisou
De uma maldição chamada vida.

O homem solta a arma
E dois soldados da corte o retiram.
E estas lágrimas quem me tira?
Somente ela, somente ela.
Virginia, Lolita, Verá a Irônica, Anabella ....[7]

(sem nome aqui em paz)

Então, senhores, após ter fugido
Dias vaguei sem destino
Até que repousei meu corpo
Sobre a lápide dela em desatino.

Um grito de horror ecoou,
Vinha da sepultura
Com minhas mãos nuas
A tampa da lápide arranquei
E ao invés da podridão
Seu perfume o caixão exalou...

Após abrir o esquife,
Tomei o corpo com delicadeza
E sobre a chuva suave
Fria, como minha deusa
Abracei o corpo dela
E esperei sem hesitar
O ressuscitar de minha Cinderela.

Algumas senhoras do júri desmaiam
Outros enfim se horrorizam.
Mas ninguém compreende!
Meu verdadeiro amor se estende
Além da morte,
Beleza e sorte.

Sinto e choro após terminar a narrativa,
Meu corpo novamente cai tremulo
E algo adentra no tribunal
Vermelha como a última senhora
Acompanhada de uma noiva encoberta
E faz com que o júri sinta
A presença da Morte, desperta!

Parte III – O veredicto e a partida


- Boa tarde que já finda -
Disse a velha senhora
Em um xale vermelho, envolvida.
- Cheguei eu em má hora? -

- Para intervir no julgamento
Deste desdenhoso poeta
Que esteve em isolamento
Numa distinta cela? –

Sinto meu corpo ser coberto por um véu
Sou retirado do chão.
Achei que aqui seria meu mausoléu
Sinto o toque gélido da noiva em minha mão.

Meu espírito sente de algum lugar
Uma força alheia a me assistir
Como um leitor a me acompanhar
E o meu desterro assistir.

- Eis que eu dou o veredicto
É culpado o poeta,
Por levar uma vida incerta
E levar o amor como um rito –

- Mas a sentença por vocês
Não pode ser aplicada,
Pois a culpa já o destruiu
E a sentença é de tempo passada. [8]-

Todos em romaria me acompanham
Silenciosamente até a saída
Nos braços de meu amor que me embalam
Acompanhado pela Morte
Eu deixo para trás o tribunal
E deixo para trás a vida.



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[1] Quem ama o sol? - Nome também de uma música da banda Velvet Underground.

[2] Bairro de São Paulo, próximo a Rodovia Raposo Tavares.

[3] Estrofe relacionada ao livro Lolita de Vladimir Nabokov, momento em que Humbert conhece Dolores em frente ao jardim de lírios.

[4] Abrigo pálido – Nome também de uma música da banda Tears for Fears.

[5] Estado mental de delírio total e perda da consciência.

[6] Midas é personagem da mitologia grega que recebeu o direito de pedir uma dádiva a Apolo e pediu que tudo que tocasse virasse ouro.

[7] Respectivas amadas de Edgar Allan Poe (Virginia) e Humbert Humbert (Lolita e Anabella de Vladimir Nabokov).

[8] Sentença de tempo passado é aplicada quando o réu é tido como culpado, porém é livre para cumprir em liberdade o veredicto. No filme O Exorcismo de Emily Rose, o padre acusado de negligência é declarado culpado, mas posto em liberdade através dessa sentença que assiste a culpa do réu como sentença dada.


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Esta poesia é parte integrante do meu livro "Jardins Dolorosas da Babilônia (ou versos ácidos para meu amor, se preferir)", publicado de forma independente em 2014.

A Nuccia já leu e resenhou. Quem quiser, a resenha está AQUI.

Vocês podem ver todas as postagens da coluna No Umbral que já saíram aqui no blog >> Acesse aqui!

Cuidado com o caminho de volta ao Umbral!




Orfeu Brocco nasceu em Uberlândia - MG em 1988, casado, atualmente vive em São Paulo. Como autor, suas obras lançadas até o momento são; "Criações Sombrias" (2014) e "Jardins Dolorosos da Babilônia (ou versos ácidos para meu amor, se você preferir)" (2014), além do livro infantil "Hélio e o menino gota" (2015), lançado pela Editora Miranda. Atualmente, desenvolve mais livros e HQs junto dos amigos.

CONTATO: broccoluiz@bol.com.br






*SORTEIO ATIVO*
(clique na imagem para ser direcionado)

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