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segunda-feira, 12 de junho de 2017

13 [Vida sem Som] - O amor nos tempos da surdez

Olá, queridos!

Bom início de semana a todos! Essa é uma daquelas semanas que dá gosto começar, já que tem um feriado prolongado chegando, confere? XD

E hoje é o tal dia que deu origem ao nosso especial Junho Apaixonante e que move um auê total em torno de relacionamentos. <3

clique na imagem para ver todas as postagens do especial

E daí? Daí, enquanto o Brasil solta coraçõezíneos por aí, eu estou lembrando desse mesmo dia 10 anos atrás: às 7h da manhã, acordei sem um som sequer chegando aos meus ouvidos. Era meu primeiro dia de surdez. Total. Irreversível.

Então, pra não deixar passar o dia em branco ou seria vermelho? rosa, talvez? e sem intenção de brochar a data de hoje, vamos debater um pouco sobre relacionamentos na surdez? Bem-vindos a mais uma edição da coluna Vida sem Som!




O AMOR NOS TEMPOS DA SURDEZ

Mas, Nuccia, por que esse tema?

Bem, se você não me conhece bem, eu explico. Há um tempinho, eu juntei em um livro (Pérolas da minha surdez) todas as perguntas malucas, curiosas, algumas sem cabimento que me fizeram desde o dia 12/06/2007. E de todas elas, as que se referem a relacionamento são as mais bizarras...



De acordo com o último censo nacional (2010), o Brasil tem quase 200 milhões de habitantes. Desses, cerca de 10 milhões possuem deficiência auditiva em algum grau. A tendência é geral colocar todos esses 10 milhões de brasileiros em um mesmo patamar. E esse patamar está bem abaixo dos seus próprios.

Por que? Simples: a grande maioria das pessoas não sabe o que é surdez, como é ser surdo, como é a comunicação, o trabalho, os hobbies, o amor. O máximo que conhecem de surdez é: "aquela pessoa que não ouve, não fala e sacode as mãozinhas de uma forma muito louca".

E sabe por que eu tenho certeza que muita gente pensa assim? Porque eu pensava assim também, antes de estar do lado de cá! E vi, com o passar do tempo, que essas mesmas concepções e ideias, que surgiram há exatos 10 anos, são total e completamente infundadas: surdos podem ser e fazer qualquer coisa!

Sabe aquele conceito bacana de superação? Sabiam que ele tem uma carga de preconceito embutida? Pois é! Quando você pensa em superação, você pensa em alguém conseguindo ser mais porque você, no fundo e inconscientemente, achava que ele nunca conseguiria.

Se é surdo, nunca conseguiria ser cantor. Ou ser bailarino. Ou mesmo cientista. Falta a audição para que ele consiga ser qualquer que seja seu sonho. Daí, o surdo mostra que consegue fazer as mesmas coisas que você e, às vezes, faz até melhor. "Nossa, que exemplo de superação!

Fica chateado, não! Eu pensava assim também! Só percebi a diferença quando eu notei que nunca superei nada. Eu sinto falta de ouvir todos os dias. Uma daquelas saudades que doem pra caramba e que o tempo não cura.

O diferencial é: percebi que eu já tinha capacidade para ser o que quisesse. O que me faltava não era a audição e, sim, a força de vontade e algumas oportunidades. Quando as oportunidades foram oferecidas, eu lutei contra mim mesma muito mais do que contra qualquer outra pessoa.

Então, ao invés de bater de frente e discutir vorazmente, erguendo a voz e apontando o dedo, escolhi ensinar esses pequenos detalhes de um jeito divertido. E hoje, decidi trazer as respostas para algumas das perguntas sobre amor e sexo na ausência do som




Surdos namoram?

O primeiro pensamento que todo mundo tem de mudar é: surdos não conseguem fazer nada. Parem de achar que somos todos pobres coitadinhos, perdidos na vida, que temos de nos contentar com empregos subalternos e baixo grau de dificuldade, que não podemos ter graduação ou pós, que nunca iremos casar e ter filhos a não ser que seja com outro surdo.

Somos seres vivos e perder a audição não nos torna menos humanos, ou menos terrestres, ou menos sei lá...! Então, digam pra mim com sinceridade, por que cargas d'água não namoraríamos?


Ah! Mas surdo namora só com surdo! Afinal, como ele ia se entender com alguém que fala?

Repitam comigo: surdos não são incapazes! 



Você lembra que existem diferentes tipos de surdo, não é? 

Relembrando: existem surdos com diferentes tipos de comunicação, devido às formas como adquiriram a surdez e à idade em que isso aconteceu.

Sabiam que uma grande parte dos surdos é surdo oralizado ou ULP (usuário de língua portuguesa)? Sabiam que isso significa que nós falamos muito bem, obrigada, de nada? E mesmo que só usássemos sinais, conhecem uma tecnologia chamada "papel e caneta"? Meio rara hoje em dia, mas super viável!! Então, só aqui a parte da comunicação já foi explicada.

E não, não namoramos, casamos, mantemos um affair só com outros surdos. Acontece que alguns (e veja bem eu disse alguns) surdos de dentro da comunidade surda brasileira preferem (preferir não é ser obrigado) namorar com uma pessoa que já saiba se comunicar com ele, porque sentem mais afinidade cultural.

MAS... isso não é regra! Eu conheço muitos surdos de nascença e da comunidade que preferem namorar ouvintes. Além disso, praticamente todos os surdos oralizados, que não fazem parte da comunidade, usuários de aparelhos ou não, namoram pessoas ouvintes.

Gente... Se você não vê problema em namoro inter-racial, homo, bi, tri, hetero, trans, whateverssexual, por que essa implicância de surdo só namora surdo?

Agora, se você vê problema em tudo... Eu acho que o problema não está no "tudo", confere?

Eu? Eu conheço alguns surdos, dentro e fora da comunidade. Ele são amigos. Nunca namorei um surdo. Nem peguei, nem transei, etc, etc. Apenas porque nunca conheci alguém que me interessasse desse jeito. Só isso.




Como é que surdos transam?

Essa pergunta é uma extensão da anterior. Sim, já me fizeram essa pergunta na cara dura, por pura curiosidade mesmo.

Vamos lá... Acho que agora todos entenderam que somos seres vivos e, como qualquer ser (da Terra ou alien), temos um instinto de reprodução. Ok, o nosso é um tanto aflorado...

Assim, nada mais normal que sexo, confere?

Tudo bem. O problema é que os coleugas curiosos querem saber como. Querem detalhes, pois, afinal, a comunicação deve ser, tipo, sei lá... como é?



Bem...  Já ouviram falar em comunicação não-verbal? Sabe, aquilo de dizer com olhos e coisa e tal? Acreditem, funciona! Não só com os olhos, dá para ter um tipo de comunicação até com carícias, vai por mim!

Não ouvir não impede mais nada, pasmem!

Cá entre nós, pra deixar mais realista e crível, faço uma confissão: nunca tive problemas de comunicação durante o sexo. Inclusive, já me disseram que sou meio escandalosa... shame on me! Além disso, por ser surda e detalhista, tenho uma melhor percepção visual, assim é bem fácil antecipar certas... coisas... vontades... intenções... Vocês entenderam, né?

Então, surdo transa como todo mundo. Isso quer dizer que tem surdo sadomasoquista? Eu sei lá, pô! Cada um com seu cada um! Deve ter, oras bolas, assim como tem gente que gosta de sexo em locais malucos (o/). ;)

Reforçando: não existe nenhum tipo de sexo especial para surdos.




Surdos não são adeptos do relacionamento aberto.

Surdos não fazem isso, surdos não fazem aquilo... Ficou surdo e descobriu uma cacetada de coisas da noite pro dia?

Não?! =O Então, conta pra mim de onde surgem essas afirmações infundadas?

Existem surdos gays. Fato. Ou seriam gays surdos? Na verdade, isso importa? Sério mesmo que precisamos rotular tudo e qualquer coisa?

O que importa é: somos todos humanos!! 

Vai ter surdo que só casa depois de anos de namoro, vai ter surdo que gosta de sexo casual (o/), vai ter surdo que não quer ter filhos, vai ter surdo que trai (o/), vai ter surdo que já foi amante (o/), vai ter surdo que tem relacionamento aberto, sim!

Ficaram chocado com a quantidade de mãozinha erguida aqui? Eu sou legal, mas também sou humana, isso significa que eu faço merda. Just like you.



Eu não vou me estender, porque acho tenho quase certeza que deu para deixar bem claro que relacionamento, amor, paixão, sexo, essas coisas todas que acontecem com pessoas que ouvem, acontecem com surdos também.

Vou deixar aqui uns sites que mostram dicas e como uma relação surdo/ouvinte funciona:

Dicas para namorar alguém com DA
Meu namorado é surdo
Namoro entre ouvinte e surdo (vídeo em Libras)

Minha história de amor ao som não teve um final feliz, já que ele não vai voltar pra mim nunca mais.

Em compensação, minha história de amor com uma pessoa já aconteceu umas 3x e eu espero que aconteça mais.

Até lá, sigo na luta, respondendo essas perguntinhas com a maior paciência possível! ;)

Quer ver outras postagens da coluna VIDA SEM SOM? Acesse AQUI!

Abra sua mente! Até a próxima coluna!





Nuccia De Cicco é bióloga, Doutora em Bioquímica, escritora, poetisa, bailarina e blogueira. Carioca de paixão de Santa Teresa, é apaixonada por livros, seriados, tatuagens e lambidas caninas, além de ter uma queda saudável por cafajestes. Surda desde os 27 anos, é co-autora em nove antologias e publicou o livro “Pérolas da minha surdez”, uma obra sobre luta e força de vontade. Todas as suas facetas são mostradas no blog “As 1001 Nuccias”. Nele, a literatura impera!


13 comentários:

  1. Bela coluna, excelente texto! Bastante explicativo e dá pra ver que foi muito honesto. Não tenho contato com pessoas surdas, então meu entendimento real é limitado, mas sempre tento manter minha mente livre de rótulos desse tipo "surdo faz isso? faz aquilo?".
    Em um nível diferente, mas acho que com alguma semelhança, nas últimas paraolimpíadas vi atletas reclamando que a imprensa focava só na superação e esquecia o lado da competição esportiva. Basicamente, olhando para o que uma pessoa não pode fazer, ao invés de olhar para o caráter e para o que ela pode fazer. Obrigado por compartilhar, abraços!

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  2. Maravilhoso seu texto e cheio de amor, coragem, força de vontade nossa ♥
    Realmente as pessoas acham que nós deficiente não podemos fazer certas coisas elas nos rotulam e não é bem assim, podemos fazer o que quisermos não é mesmo?

    Amei o texto

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  3. Olá!
    Adorei essa postagem!! Maravilhosa!! Muito mais pessoas precisam ler esse texto e parar com preconceitos bobos e perguntas inconvenientes. Você me fez lembrar de uma professora de LIBRAS que tive na faculdade. Ela era uma grande defensora da cultura surda, mas, quando fomos apresentar uma música de rock em LIBRAS, ela não deixou! Disse que seria muito complexa para os surdos entenderem, é mole?! Ela caiu bastante no meu conceito por causa disso.
    Como todo mundo, os surdos tem direitos e deveres, oras! Achei bem absurdas algumas perguntas que já fizeram a você. =/

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  4. Amei, Nu.
    Rótulos são horríveis e as perguntas que vêm, através disso, são as mais incabíveis e impensáveis.
    Tenho sofrido com rótulos e confesso que me sinto desconfortável com alguns. Mas vamos em frente...
    Beijokas.

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  5. Oi Nuccia!
    Eu li isso no teu livro e muita coisa me fez pensar diferente sabia? Até na hora de bolar algo para o blog, quando penso em fazer vídeo vc é a primeira pessoa que me vem a cabeça. E sim tenho N coisas boas pra falar pra vc desde superação e coisa que valha, só que sou ouvinte no momento só tenho uma vaga ideia do que é e do leões a matar por dia.
    Bjs

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  6. Olá Nuccia! Achei a coluna muito boa! Admirei a coragem de postar algo tão intimo.
    E as pessoas tem que parar de rotular tudo. Todos somos seres humanos <3
    Amei o texto!
    Beijos!

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  7. Oie amores,

    Ai feriado prolongado ... faz tempo que estou tendo um feriado prolongado... quero é trabalhar rsrsrs... e ter essa sensação.
    Que dia marcante hein amoreca... imagino que sensação tenha nesse dia... Que post completo, parabéns pela determinação, dedicação e força!

    Te admiro moça!

    Beijoka!

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  8. Olá, tudo bem?

    Feriado é a melhor coisa. Prolongado ainda, nem se fala! rs.

    É incrível como o ser humano é curioso e ao mesmo tempo preconceituoso com tudo. E se você tem alguma deficiência isso piora. Parece que só porque a pessoa tem alguma deficiência, ela deixa automaticamente de ser um ser humano e deixa de viver por causa disso. Isso é ridículo e infelizmente não vai acabar tão cedo. Seu texto foi esclarecedor demais.

    Não te conheço, mas admiro sua determinação e batalha. E paciência. Continue assim!

    Beijos
    Laneh Martins

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  9. Olá Nuccia,
    Adorei a sua postagem, pois você colocou as coisas em ordem e isso é legal. Nunca pensei muito nessa parte amorosa de um surdo, mas já pensei em outras situações, por exemplo: como um surdo consegue cuidar do filho se não pode ouvi-lo chorar? Eu tive acesso a uma moça que, quando teve o filho, sofreu com isso, porque ela só sabia pelo visual e isso a assustava. Ela tinha medo de o filho sofrer alguma coisa e ela não socorrê-lo a tempo. Aí ela adquiriu um naqueles negócios piscantes, não sei como chama e isso facilitou a vida dela. Agora, pensar que um surdo não é capaz disso ou daquilo é muito ridículo e preconceituoso.
    Você é muito boazinha, pois tem paciência com essas pessoas.
    Beijos

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  10. Olaaa Nuccia
    Sua coluna foi muito profunda e muito sincera, confesso que não tenho muito contato com pessoas surdas porém é interessante deixar claro que elas não deixam de conseguir fazer algo por isso. Adorei seu texto, com certeza é algo que todos deveriam ler.

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  11. Oi, nuccia, amei a postagem principalmente porque já li seu livro e amei. Também lido diariamente com essas perguntinhas absurdas pois tenho deficiência visual e rola esses questionamentos quase do mesmo jeito, e pasme, quando aparece uma cega grávida perguntam para ela: quem fez isso com você? como se a ausência de visão tirasse todo o resto, desejos e etc. só espero que as pessoas aprendam um pouquinho nessa vida.

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  12. Oi Nu, que postagem maravilhosa mulher!!!!!
    Você como sempre mandando ver. Adorei... tenho certeza de que foi um tapa na cara para uns e um grande aprendizado para outros. Não sei se já comentei aqui. Eu dançava em um grupo de dança que tinha um grupo também de surdos e mudos e eu adorava... ficava encantada com o jeitos dançarem maravilhosamente bem com a música, mas sei ouvi-la, depois percebi o quanto eu era ignorante quanto ao assunto e resolvi chamar minha tutora e juntá-los conosco nos espetáculos e nada separado, foi super legal, eu tenho saudades desta época. Eu ainda me sinto muito por fora deste assunto, mas sinceramente eu não vejo diferença nenhuma. Acho que somos todos humanos e temos os nossos gostos e preferência, não porque um é surdo e ele não pode, mas eu que não sou eu posso... isso é irritante para ser bem sincera. Enfim... sua postagem foi bem esclarecedora... e claro sempre que leio algo da coluna, fico feliz em aprender mais. Obrigada! Xero!

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  13. Oi Nu, sua linda, tudo bem?
    OMG!!!!!! Você simplesmente arrasou com sua postagem. Posso falar??? Estou chocada com essas perguntas, nunca iria imaginar que alguém poderia pensar que a deficiência auditiva pudesse limitar coisas que não possuem nenhuma relação com a audição. O que me chamou atenção para um fato que você mesma aborda: quando alguém é diferente da gente, por qualquer fator, o olhar muda. Isso é tão estranho não??? Além de ter arrasado, foi super criativa, nunca pensei encontrar essa postagem no dia dos namorados. Parabéns.
    beijinhos.
    cila.

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